21 de maio de 2011

Eu divago e sonho

Caminho de olhos vendados. Passo por cima de rios, camadas de concreto e arames dobrados. Passo por uma senhora que aguarda no ponto de ônibus, então cabeleireiros, farmácias e bares. Oras sinto medo, oras sinto liberdade, mas esse último é raro. Na maior parte tempo procuro olhar para o horizonte. Mas aqui têm muros que me forçam a olhar apenas para o óbvio, para a rua de pedras fincadas. Pedras. Fincadas. Meu Deus o que estamos fazendo? No lugar do campo estancado vemos muros. Muros, muros, muros. Muros que afirmam a todo tempo “isso é meu”.  Temos medo. Sim, medo da violência e da agressão. Mas mais do que isso, temos medo de sermos descobertos, de que nos vejam em nossa naturalidade hostil.

Agora ando só. Fecho os olhos para sentir a brisa no rosto sem dó. As vezes sinto ameaçada, as vezes sinto que sou a ameaça. Essa cidade cresce destruindo-se. Desmorona a vida para que novas vidas cresçam em deleite. E não temos tempo mais nem para conhecer até que fim a rua leva. Leva a algum lugar, só que agora não tenho tempo. Eu vou lá pra ver, e ela continua um pouco mais. Sigo o trilho, depois o chão batido, trechos em paralelepípedo e novamente pedra fincada. Pedras fincadas, de onde tiramos essa idéia?
 
As irregularidades são tantas. É sábado, tudo está quieto, exceto ali. Seguindo aquela rua tem um som alto e pessoas aglomeradas. Mas não vou. Continuo, vejo o menino soltando uma pipa branca de rabiola e tudo. Agora outro jogando futebol com seus compatriotas. Meu Deus esse lugar é de todo mundo, a rua é nossa! Nela o moço anda de bicicleta, e eles põem mesas e cadeiras pra conversar. Mas não é. Nela deixamos clara a nossa sujeira e falta de autocontrole. O moço deita porque bebeu demais. O lixo é nosso, as pilhas e pilhas de lixo são nossas. O lixo escorrendo no rio é daquela casa e daquela outra e daquelas lá na frente. O lixo empilhado no muro veio do prédio ao lado. O menino jogou um pedaço de papel e nem olhou pra ver. A rua, Deus, a rua não é mais de ninguém. 

Fico pensando porque me importar com tudo isso? Vejo uma escola e atrás dela um pasto queimado. Uma trilha subindo o pasto deixa claro que pessoas passam ali. Pessoas adultas e crianças a caminho da escola. Passam por ali para não passar pela rua, aí queimam o capim para deixar tudo cinza igual. Passam ali porque são apressadas, queimam porque dá na mesma. Que coisa, pedras fincadas e pastos queimados, a cidade fica se mostrando mesmo nas suas extremidades. Chego ao topo. Vista? Não, uma antena e mais uma casa murada. Dos dois lados cercas e muros.
 
Sigo em frente porque acho que me levará para casa. Vejo mais moradias, e mais sinais de capim queimado. Vejo pessoas conversando na calçada, e elas me vêm. Sou vista na rua, estou caminhando. Quero voltar pra casa e me esconder disso tudo, lembrar-me dos lugares sem pedras fincadas, sem lixo, sem muros. Meu Deus, quero voltar pra casa.